O trabalho espontâneo

"Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve."

Mês: janeiro, 2011

Céu de açúcar

Essa é a história de um garoto que achava tudo grande, exceto a si mesmo. Seu mundo era grande demais e sua cabeça ainda muito pequena. Não via menor problema em não se ajustar ao mundo dos outros, apesar de chorar a noite.  Quando só, o garoto buscava em suas inseguranças uma forma de voar dali, como um balão.

Na casa há uma grande escada de madeira, velha e suja de tinta. Foi o menino que pintou. Pequenas mãos usam toda força para colocá-la no local já marcado. Ele sente pressa, sabe que não tem muito tempo. Essas coisas não têm hora para acontecer. Demorava horas para chegar ao topo e tocar o céu. As montanhas não eram seu limite e os prédios enormes apenas uma passagem para um vôo longo. Há uma piscina na casa em frente e os peixes às vezes nadam ali. As cores vibram. Suas mãos pequenas já tocam o céu. Os pés equilibram-se. O garoto fecha os olhos, o mundo para. O vento que bate em seu rosto levanta as bochechas e forma um singelo sorriso. As mãos costuram no ar. Respira fundo, querendo tomar toda a brisa para si. As estrelas aparecem, dando boas-vindas ao pequeno visitante. O céu avermelhado vai ganhando novas cores. Foi o menino que pintou. Ele sente que o fim vem vindo, mas finge não notar e continua domando o mundo. Três andorinhas pousam no cimento ao lado, cochichando o quão astuto é este menino. Ele ri e as espanta. Não quer intrusas no seu espaço. As cores vão sumindo, o vento vai bradando. De enxergar tanto o menino vai voltando a ficar cego. Ele sente medo. Medo de que descubram o seu lugar, o seu momento. Sua insegurança não o fará mais seguro. Ao ouvir um barulho, desce correndo com medo de não chegar ao chão. Pronto, aterrizou. O mundo voltou a ser o mesmo.

O rapaz chega na casa. Abre as portas e é recebido com lambidas do pequeno cachorro.  Chega arrastando as mochilas e antes de procurar por alguém vai pro quarto deixar as trouxas. O quarto continua o mesmo – mesmo aspecto, mesmas colchas, mesmo cheiro. É como se ninguém tivesse saído dali e que apenas tenha apertado o pause desse longo filme. Ao andar pela casa vê o quanto tudo é pequeno. “Tem alguém em casa?”, ele grita. Sua mãe está no trabalho e não deve saber que está aqui. Liga a TV, assiste alguns programas dos 5 canais disponíveis. Passa o dedo pelos livros tantas vezes já lidos, buscando algum descaso no passado e achar um perdido.  Do lado de fora ele puxa um cigarro e liga uma música. A rádio dali é péssima. Encosta na mesa e olha para todos os lados. “Nossa, como eu achava coisa pra fazer aqui”, ele pensa. O bichano encosta-se a sua perna, pedindo carinho. O rapaz agacha e afaga seus pêlos brancos.  O cão sai andando e arranja uma pequena escada para mijar. Uma escada suja de tinta.

Ele olha para o céu. Começa a sentir alguma coisa vindo. Olha ressabiado para a escada e ri de si mesmo. “Larga disso, era coisa de criança”. Para, pensa, e sente. Por que não tentar? Espera o cão e depois a pega sem muitos esforços. Apóia na parede e ao subir o primeiro degrau olha para a marca. Desce com um sorriso tolo, e ajeita a escada no seu devido lugar. Os cinco degraus são rapidamente subidos.  No topo ele olha a vista. Não sente nada. As montanhas são pequenos morros. Os prédios devem ter no máximo 3 andares. As casas são comuns e todas em cor pastel. A piscina na frente está suja, não duvido ser foco de dengue. Olha pro lado e não há andorinhas, e sim um ninho de pombos. “Satisfeito?”, diz para si mesmo. Começa descer os degraus e ouve uma andorinha. Ele pára imóvel. Silêncio. Ao ameaçar descer, ouve novamente. Dessa vez é mais de uma. Ele sobe. Está tudo exatamente como realmente é, exceto pelas andorinhas. Elas cochicham, comentando como astuto sempre foi esse menino. Ele não as espanta, mas elas saem voando mesmo assim. O vento bate em seu rosto, ele fecha os olhos e esboça um sorriso. Aquele mundo não parece ser mais tão grande, exceto a si mesmo.

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Pra quê título?

De tempos em tempos as coisas que nunca fazem sentido preferem se divertir com medo e loucura. O dramalhão rotineiro deixa de ser mera tolice e se transforma em verdades adoçadas. Tudo gira em torno e isso corrói minha sanidade cada vez mais depressa, cada vez mais forte. A memória agora é inconveniente porque distrai do real. Lembranças são tendenciosas e traiçoeiras. Ficou difícil andar de mãos com pensamentos ilusórios. A mente sente falta de tecido. Frio existencial. Os comportamentos que não compreendo teimam em aparecer agora nas mesas dos amigos, como se esperassem aceitação por se manifestarem entre queridos eternos, entre solidários de cigarros. Manipuladores de sanidade. Amor crônico por todas as pessoas que se sentem sufocadas pelo nada. De repente mil devaneios se chocam na fronteira entre o rude e o apaixonado. A esse ponto não me sinto confortável guardando vazios no completo. Sempre me interessei por prolixidade no prazer, e ele próprio provou que tal coisa não existe. Que sensação deliciosa essa de ignorar o externo e almejar o perigo.

Minha humanidade implora por férias.