Dó na garganta

Embaciado. Uma imagem desfocada. O solo bate em minha pele. Sinto seu ardor. Minha alma geme, esperando o toque dos dedos ágeis. Um som harmonioso ecoa no espaço. O coração dispara em sobressalto.

Vibra. O anúncio de um prelúdio aperta meu peito. O fio do timbre ecoa em meus ouvidos. Olhos se fecham. Embalado pelo som macio e doce, a tranquilidade desenha-se em minha face. Vejo você em cada nota. Sucumbo ao desejo e penetro-me nos acordes. Eles penetram em mim. Sinto sua forma dilacerando em meu peito. Eis meu soneto preferido, com rima mais desconexa a pensamentos que vão ao seu encontro.

O som para. A visão se altera. Sou a música sem o intérprete. Apavoro-me. Isento de ritmo, melodia e efeito, sou o silêncio em verso atonal. Inspiro, lanço o olhar ao teto. Os lábios se contorcem num sorriso escarninho.

Sinto-te. Com o sentir mais profundo. Sem ter explicações nem porquês.

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