Céu de açúcar

por Serafim Nhoque

Essa é a história de um garoto que achava tudo grande, exceto a si mesmo. Seu mundo era grande demais e sua cabeça ainda muito pequena. Não via menor problema em não se ajustar ao mundo dos outros, apesar de chorar a noite.  Quando só, o garoto buscava em suas inseguranças uma forma de voar dali, como um balão.

Na casa há uma grande escada de madeira, velha e suja de tinta. Foi o menino que pintou. Pequenas mãos usam toda força para colocá-la no local já marcado. Ele sente pressa, sabe que não tem muito tempo. Essas coisas não têm hora para acontecer. Demorava horas para chegar ao topo e tocar o céu. As montanhas não eram seu limite e os prédios enormes apenas uma passagem para um vôo longo. Há uma piscina na casa em frente e os peixes às vezes nadam ali. As cores vibram. Suas mãos pequenas já tocam o céu. Os pés equilibram-se. O garoto fecha os olhos, o mundo para. O vento que bate em seu rosto levanta as bochechas e forma um singelo sorriso. As mãos costuram no ar. Respira fundo, querendo tomar toda a brisa para si. As estrelas aparecem, dando boas-vindas ao pequeno visitante. O céu avermelhado vai ganhando novas cores. Foi o menino que pintou. Ele sente que o fim vem vindo, mas finge não notar e continua domando o mundo. Três andorinhas pousam no cimento ao lado, cochichando o quão astuto é este menino. Ele ri e as espanta. Não quer intrusas no seu espaço. As cores vão sumindo, o vento vai bradando. De enxergar tanto o menino vai voltando a ficar cego. Ele sente medo. Medo de que descubram o seu lugar, o seu momento. Sua insegurança não o fará mais seguro. Ao ouvir um barulho, desce correndo com medo de não chegar ao chão. Pronto, aterrizou. O mundo voltou a ser o mesmo.

O rapaz chega na casa. Abre as portas e é recebido com lambidas do pequeno cachorro.  Chega arrastando as mochilas e antes de procurar por alguém vai pro quarto deixar as trouxas. O quarto continua o mesmo – mesmo aspecto, mesmas colchas, mesmo cheiro. É como se ninguém tivesse saído dali e que apenas tenha apertado o pause desse longo filme. Ao andar pela casa vê o quanto tudo é pequeno. “Tem alguém em casa?”, ele grita. Sua mãe está no trabalho e não deve saber que está aqui. Liga a TV, assiste alguns programas dos 5 canais disponíveis. Passa o dedo pelos livros tantas vezes já lidos, buscando algum descaso no passado e achar um perdido.  Do lado de fora ele puxa um cigarro e liga uma música. A rádio dali é péssima. Encosta na mesa e olha para todos os lados. “Nossa, como eu achava coisa pra fazer aqui”, ele pensa. O bichano encosta-se a sua perna, pedindo carinho. O rapaz agacha e afaga seus pêlos brancos.  O cão sai andando e arranja uma pequena escada para mijar. Uma escada suja de tinta.

Ele olha para o céu. Começa a sentir alguma coisa vindo. Olha ressabiado para a escada e ri de si mesmo. “Larga disso, era coisa de criança”. Para, pensa, e sente. Por que não tentar? Espera o cão e depois a pega sem muitos esforços. Apóia na parede e ao subir o primeiro degrau olha para a marca. Desce com um sorriso tolo, e ajeita a escada no seu devido lugar. Os cinco degraus são rapidamente subidos.  No topo ele olha a vista. Não sente nada. As montanhas são pequenos morros. Os prédios devem ter no máximo 3 andares. As casas são comuns e todas em cor pastel. A piscina na frente está suja, não duvido ser foco de dengue. Olha pro lado e não há andorinhas, e sim um ninho de pombos. “Satisfeito?”, diz para si mesmo. Começa descer os degraus e ouve uma andorinha. Ele pára imóvel. Silêncio. Ao ameaçar descer, ouve novamente. Dessa vez é mais de uma. Ele sobe. Está tudo exatamente como realmente é, exceto pelas andorinhas. Elas cochicham, comentando como astuto sempre foi esse menino. Ele não as espanta, mas elas saem voando mesmo assim. O vento bate em seu rosto, ele fecha os olhos e esboça um sorriso. Aquele mundo não parece ser mais tão grande, exceto a si mesmo.

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