Moldurado

por Serafim Nhoque

O fim de tarde é a minha parte favorita do dia. O horizonte mostra um céu confuso, avermelhado, distraído com o calor do sol indo embora e encantado com os mistérios da lua aparecendo. Nessa hora tudo fica meio estático. O trânsito (parece) mais educado. As buzinas e barulhos urbanos ficam abafados. As padarias e cafés abrem as portas. A cidade ganha uma silhueta poética. A rotina desacelera por alguns minutos. Vem a sensação de que tudo o que tinha para acontecer, já aconteceu. Ao mesmo tempo ainda pode (e por Deus, deve!) ter algo de interessante por vir.

O fim de tarde traz consigo uma paz que inspira, comove e me faz pensar. Me lembra o quanto amo não me importar com nada além de uma estrela descendo e outra subindo, e um céu colorindo e descolorindo em tons de vermelho, mel, amarelo, azul, branco e cinza. A única intrusa que permito me distrair nesse cenário todo é, talvez, a música.

Vontade de fotografar de um ângulo diferente. No fim de tarde tudo fica altamente “fotografável”. Vontade de ligar pra um amigo e conversar sobre isso, mas a maioria deles não se empolgaria muito com o meu eventinho particular. Se o mundo parasse para enxergar fenômenos de tal simplicidade, decerto viver seria menos… asfixiante.

Quando chega o fim de tarde, dá vontade de me arrumar e sair com pessoas específicas. Ou tomar banho, colocar aquela blusa surrada e meias, assistindo filme na sala. Ou simplesmente preparar um café e ir para a varanda contemplando o espetáculo que é ter mais um dia passando da metade e você continuar vivendo nele.

Nada demais. Só mais uma banalidade que não vale mais a pena guardar só pra mim.

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